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O Olho do Mundo

Robert Jordan

Excerto

Capítulo 1
Uma estrada vazia

     A Roda do Tempo gira, e as Eras vêm e passam, deixando memórias que se tornam lendas. As lendas se desvanecem em mito, e até o mito estará há muito esquecido quando a mesma Era, que lhe deu origem, retornar. Em certa Era, que alguns chamam Terceira Era – uma Era futura, uma Era que há muito passou – um vento se ergueu nas Montanhas da Névoa. O vento não foi o começo. Não há começos nem finais no volver da Roda. Mas foi um começo.

     Surgido abaixo dos cumes sempre cobertos de nuvens, que davam às montanhas seu nome, o vento soprou na direção leste, cruzando as Colinas de Areia, que um dia formaram as margens de um grande oceano, antes da Ruína do Mundo. O vento desceu, fustigante, rumo à Terra dos Dois Rios, adentrando a entrelaçada massa de árvores conhecida como Floresta do Oeste, e soprou sobre dois homens que andavam com uma carroça e um cavalo, pela acidentada trilha chamada Caminho da Pedreira. A primavera já deveria ter chegado há quase um mês e, no entanto, o vento carregava um arrepio gelado, como se prenunciasse neve.

     Lufadas de vento grudavam o manto de Rand al’Thor a suas costas, chicoteavam a lã cor de terra ao redor de suas pernas e depois faziam o tecido drapejar atrás dele. Rand desejou que seu manto fosse mais pesado, ou que tivesse trazido uma camisa extra. Metade das vezes em que tentava acomodar o manto ao seu redor, ele ficava preso na aljava, pendurada na cintura. Tentar segurar o manto com uma única mão não adiantava muito. Ele trazia seu arco na outra mão, uma flecha engastada à corda, pronta para ser puxada.

     Quando uma rajada especialmente forte arrancou-lhe o manto dentre os dedos, ele lançou um olhar ao pai, por cima do lombo da peluda égua marrom. Sentiu-se meio tolo por aquele súbito desejo de certificar-se que Tam ainda estava lá – mas esse, enfim, era um daqueles dias. O vento gemia ao se erguer, mas, exceto por isso, uma pesada quietude jazia sobre a terra. Pelo contraste, o leve estalar das rodas soava alto. Nenhum pássaro cantava na floresta, nenhum esquilo fazia ruído nos galhos. Não que ele esperasse ouvi-los: não nesta primavera.

     O único verde na floresta era das árvores que não perdiam folhas no inverno. Restos emaranhados de velhos arbustos espinhentos formavam teias marrons, nos afloramentos de pedra, sob as árvores. Havia poucas plantas, na maioria urtigas; o resto eram espécies cheias de espinhos ou cascas pontudas, além de ervas-fétidas, que deixavam um cheiro nauseante nas desavisadas botas que nelas pisassem. Porções espalhadas de neve ainda pontuavam o solo, onde densos amontoados de árvores mantinham sombras profundas. Nos raros pontos que a luz alcançava, sua claridade não tinha força nem calor. O pálido sol vinha nascendo atrás das árvores no leste, mas sua luz era vagamente escura, como que misturada à sombra. Era um amanhecer estranho, próprio a pensamentos desagradáveis.

     Sem pensar, ele tocou o engaste da flecha: estava pronta a ser puxada, até a altura do rosto, num único e fluido movimento, como Tam havia lhe ensinado. O inverno fora péssimo nas fazendas (pior do que todos os invernos das últimas décadas) mas devia ter sido ainda mais duro nas montanhas, a julgar pelo número de lobos que, forçados pela fome, desciam rumo aos Dois Rios. As feras invadiam os apriscos das ovelhas e se enfiavam nos estábulos para atacar o gado e os cavalos. Ursos também devoraram ovelhas, em lugares onde ursos não eram vistos há anos. Já não era seguro sair de casa após o anoitecer. Humanos eram atacados tanto quanto as ovelhas, e nem sempre depois do pôr do sol.

     Tam caminhava em passos firmes e longos no outro lado de Bela, usando a lança como bastão, ignorando o vento que fazia seu manto marrom drapejar como um estandarte. De vez em quando, tocava levemente o flanco da égua, para lembrá-la de seguir andando. Com seu peito rijo e rosto largo, ele era um pilar de realidade naquela manhã, feito uma rocha no meio de um sonho flutuante. É bem verdade que havia linhas em seu rosto queimado de sol, e apenas uns vestígios de negro no cinza dos cabelos, mas existia nele uma espécie de solidez, como se uma enchente pudesse jorrar ao seu redor sem desenraizar-lhe os pés. Agora ele andava impassivelmente pela estrada. Sua postura e seu porte diziam: “muito bem, há lobos e ursos por aí, e todos os criadores de ovelhas devem ter isso em mente, mas é melhor que essas criaturas não tentem impedir Tam al’Thor de chegar ao Campo de Emond”.

     Com súbita sensação de culpa, Rand tornou a vigiar seu lado da estrada – o jeito pragmático de Tam recordava-lhe de sua tarefa. Rand era um palmo mais alto que o pai, mais alto que qualquer pessoa no distrito, e havia pouco de Tam em seu físico, exceto talvez pela largura dos ombros. Os olhos cinzas e o tom vermelho do cabelo vieram de sua mãe – era o que Tam costumava dizer. Ela fora uma estrangeira, e Rand lembrava pouca coisa a seu respeito, exceto pelo rosto sorridente. Apesar disso, ele punha flores em seu túmulo todos os anos, em Bel Tine, na primavera, e no Dia do Sol, no verão.

     Duas pequenas pipas, cheias do conhaque de maçã que Tam fabricava, jaziam na carroça balançante. Além delas, havia também oito barris maiores contendo cidra que, após fermentar ao longo do inverno, estava apenas suavemente ácida. Todos os anos, Tam entregava a mesma quantidade de bebida na Estalagem Fonte-de-Vinho, para o festival de Bel Tine – e ele havia garantido que seriam necessários mais do que lobos ou vento frio para detê-lo nessa primavera. Ainda assim, fazia semanas que não iam ao vilarejo. Nem mesmo Tam viajava muito nesses dias. Ele havia dado sua palavra sobre aquela encomenda, mas, mesmo assim, esperou até a véspera do Festival para entregá-la. Cumprir sua palavra era importante para Tam. Já Rand estava apenas contente por sair um pouco da fazenda, quase tão contente quanto estava pela chegada de Bel Tine.

     Enquanto vigiava seu lado da estrada, Rand foi invadido pela sensação de que alguém o observava. Por um tempo, ele tentou ignorar a impressão com um dar de ombros. Nada se movia ou fazia qualquer som entre as árvores, exceto pelo vento. Mas o sentimento não apenas persistiu – ficou mais forte. Os pelos em seus braços se arrepiaram, vagamente, e sua pele formigava, numa espécie de coceira interna.

     Com irritação, passou o arco da mão direita à esquerda, para poder coçar o braço – e ordenou a si mesmo que deixasse de lado aquelas imaginações. Não havia nada na floresta ao seu lado da trilha, e Tam diria se houvesse algo errado no lado oposto. Ele lançou um olhar por cima do ombro... e piscou. Atrás deles na estrada, a não mais de vinte palmos de distância, uma figura encapuzada e montada a cavalo os seguia: cavalo e cavaleiro igualmente negros, sombrios e sinistros.

     Foi por simples força do hábito que Rand seguiu andando, ao lado da carroça, enquanto olhava para trás. O manto do cavaleiro cobria tudo até o cano das botas, e o capuz estava puxado bem para frente, de modo que nenhuma parte do corpo aparecesse. Rand pensou, de forma confusa, que havia algo estranho naquele cavaleiro, mas, apesar disso, a sombria abertura do capuz o fascinava. Ele podia apenas discernir os mais vagos contornos de uma face, mas tinha a sensação de estar olhando direto nos olhos do cavaleiro. E não conseguia, de modo algum, desviar o olhar. Um enjôo assentou em seu estômago. A única coisa visível no capuz era sombra, mas ele sentiu que ali havia ódio, e o sentiu agudamente, como se visse uma face raivosa – ódio por todas as coisas vivas. E ódio por ele, mais que tudo; por ele, acima de todas as coisas.

     Subitamente, uma pedra se chocou contra seu tornozelo e ele tropeçou, desviando os olhos do cavaleiro negro. Seu arco caiu na trilha, e apenas um esticar da mão, agarrando os arreios de Bela, impediu-o de tombar de costas no chão. Com um relincho assustado, a égua estacou, virando a cabeça para ver o que a havia agarrado.

     Tam franziu o cenho, olhando Rand por cima do lombo de Bela.

     – Tudo bem com você, rapaz?

     – Um cavaleiro – disse Rand, sem fôlego, enquanto ficava de pé. – Um estranho, nos seguindo.

     – Onde? – O homem mais velho ergueu a lança de lâmina larga, e perscrutou o caminho atrás, cautelosamente.

     – Lá atrás, na... – As palavras de Rand morreram, na medida em que se voltava para apontar. A suas costas, a estrada estava vazia. Incrédulo, ele fitou a floresta em ambos os lados da trilha. As árvores de galhos desnudos não ofereciam esconderijo, e não havia sequer um vislumbre do cavalo ou do cavaleiro. Ele enfrentou o olhar inquisitivo do pai.

     – Estava ali. Um homem com manto escuro, num cavalo preto.

     – Eu não duvidaria da sua palavra, rapaz. Mas para onde ele foi?

     – Não sei. Mas ele estava ali. – Apanhou o arco e a flecha do chão, checou apressadamente as plumas do engaste, encaixou a seta e puxou o arco até a metade, antes de distender a corda. Não havia nada em que mirar. – Ele estava... ali.

     Tam meneou a cabeça grisalha.

     – Se você diz, rapaz. Vamos lá, então. Um cavalo deixa pegadas, até mesmo nesse solo. – Ele fitou a parte traseira da carroça, seu manto tremulando ao vento. – Se nós as acharmos, saberemos que alguém esteve por aqui. Se não... Bem, dias como este podem fazer um homem pensar que viu coisas.

     De repente, Rand percebeu o que havia de estranho no cavaleiro, além do fato de ter surgido do nada. O vento que fustigava Tam e Rand não havia mexido uma única dobra daquele manto negro. Sua boca ficou subitamente seca. Talvez tivesse imaginado tudo. Seu pai estava certo: manhãs como essa atiçam a imaginação de um homem. Mas não, ele não acreditava nisso. No entanto, como diria ao pai que aquele homem, que aparentemente se desvanecera no ar, usava um manto imune ao vento?

     Com a testa franzida de preocupação, ele perscrutou a floresta ao redor deles, e ela parecia diferente de todas as vezes que a vira antes. Desde que tinha idade suficiente para andar, ou quase, ele havia corrido solto naqueles bosques. Foi nas lagoas e córregos da Floresta D’Água, além das últimas fazendas, ao leste do Campo de Emond, que ele aprendera a nadar. Havia explorado as Colinas de Areia (para muita gente nos Dois Rios, um lugar de mau agouro) e uma vez fora até a base das próprias Montanhas da Névoa – ele e seus amigos mais próximos, Mat Cauthon e Perrin Aybara. A maioria das pessoas no Campo de Emond jamais fora tão longe de casa; para eles, uma jornada ao vilarejo mais próximo, ladeira acima rumo à Colina da Guarda, ou descendo para o Corredor de Deven, já era um grande acontecimento. Dentre todos esses lugares, ele jamais encontrara um único que lhe desse medo. Hoje, no entanto, a Floresta do Oeste não era o lugar que ele recordava. Um homem que pode desaparecer assim, num repente, decerto poderia ressurgir da mesma forma – talvez bem ali, na frente dele.

     – Não, pai, não é preciso. – Quando Tam se deteve, em surpresa, Rand escondeu o vermelho do rosto puxando o capuz para frente. – O senhor deve estar certo. Não faz sentido ficar procurando pelo que sumiu, quando podemos usar esse tempo para chegar ao vilarejo e sair da ventania.

     – Um cachimbo viria a calhar – Tam disse, vagarosamente. – E uma caneca de cerveja, num lugar quente. – De súbito, ele mostrou os dentes num largo sorriso de malícia. – E imagino que você esteja ansioso para ver Egwene.

     Rand conseguiu exibir um sorriso fraco. Ele não tinha nenhuma vontade de pensar na filha do Alcaide, ainda mais agora, com tantas coisas ocupando sua mente. Não, ele não precisava de nenhuma confusão a mais. Ao longo do último ano, Egwene havia aperfeiçoado o poder de deixá-lo nervoso – um poder que aumentava a cada encontro. E pior: a garota nem parecia notar seu efeito sobre Rand. Não, ele certamente não queria acrescentar a filha do Alcaide aos seus pensamentos.

     O jovem estava esperando que o pai não notasse seu medo, quando Tam disse:

     – Lembre-se da chama, rapaz, e do vazio.

     Era uma coisa estranha, que Tam havia lhe ensinado. Concentrar-se numa única chama e alimentá-la com todas as suas paixões – medo, ódio, raiva – até que sua mente estivesse vazia. “Una-se ao vazio”, Tam costumava dizer, “e você poderá fazer qualquer coisa”. Ninguém mais em Campo de Emond falava daquele jeito. Mas, todos os anos, em Bel Tine, Tam vencia a competição de arco e flecha, com sua chama e seu vazio. Rand achava que ele próprio teria chances de colocação nos jogos desse ano, caso conseguisse se agarrar ao vazio. E se Tam havia mencionado o assunto logo agora, então havia notado o medo no garoto– mas não disse mais nada sobre o assunto.

     Tam atiçou Bela com um breve grito, e eles recomeçaram a jornada – o homem mais velho caminhando em passos largos, como se nada de adverso tivesse acontecido ou pudesse acontecer. Rand o imitaria, se pudesse. Ele tentou encher sua mente com o nada, mas os pensamentos continuavam deslizando, fatalmente, para o cavaleiro negro.

     O garoto queria acreditar que o cavaleiro fora apenas imaginação, como Tam havia dito; mas era com demasiada exatidão que aquele sentimento de ódio voltava à sua memória. Houvera alguém ali. E esse alguém o detestava. Ele não parou de olhar para trás, até que os altos telhados de colmo do Campo de Emond os cercaram.


Excerto de O Olho do Mundo, de Robert Jordan.
Lançamento: setembro de 2009.


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